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ED 108

Chinatown: o acordo que vale é o que se paga na hora

Lotes sorteados no tabuleiro, lojas que só mudam de dono na conversa e um manual que ignora qualquer promessa de rodada futura.

Chinatown: o acordo que vale é o que se paga na hora

Lotes numerados e uma loja trocando de dono

▼

Nenhum acordo de mesa vale sem entrega no ato. O manual de Chinatown escreve a regra em uma linha seca, e quase toda mesa nova tenta furar ela antes da terceira rodada, prometendo devolver o favor mais tarde.

Karsten Hartwig assinou a caixa em 1999, publicada na Alemanha pela Alea, e o assunto é a compra e venda de pontos comerciais num bairro de Nova York dividido em quarteirões numerados. O tabuleiro é uma grade de lotes, cada lote com um número impresso, e cada jogador recebe cartas que dizem quais lotes são dele naquela rodada.

Depois vêm as peças de negócio, sorteadas do saco. Uma lavanderia precisa de três lotes ligados para ficar completa. Uma floricultura precisa de quatro. Um restaurante de dois. As peças que você tirou quase nunca combinam com os lotes que caíram na sua mão, e é por causa dessa distância que a mesa começa a conversar.

A conversa é o jogo inteiro. Não existe leilão, não existe rodada de lances, não existe ordem de fala. Cinco pessoas negociam ao mesmo tempo, em duplas e trios, sobre lote, peça de negócio e dinheiro, e qualquer combinação dos três entra na mesma proposta.

O manual reconhece um tipo de acordo só: o que é cumprido no instante do aperto de mão. Lote passa de mão em mão na hora, peça sai da bandeja do vendedor e entra na do comprador na hora, dinheiro é contado na hora. Promessa de pagar na rodada seguinte não existe para o jogo, e o adversário que cumprir uma promessa dessas está sendo simpático, nunca obrigado.

A partida tem seis rodadas. Ao fim de cada uma, todo negócio no tabuleiro paga de acordo com o tamanho que alcançou, e um negócio completo rende bem mais que a soma de peças soltas espalhadas. Quem tem mais dinheiro no fim da sexta rodada vence.

A caixa atende de três a cinco pessoas, cada partida leva entre sessenta e noventa minutos, e o peso na escala da comunidade do BoardGameGeek fica em 2,0.

A Mesa de Hoje abre pela grade de lotes: como a rodada distribui as peças, o que a negociação livre permite fazer com elas e por que o pagamento imediato muda a forma de propor.

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I  A Mesa de Hoje

I, A grade de lotes e a conversa que decide tudo

A rodada tem quatro etapas fixas e nenhuma delas envolve rolar dado. Primeiro cada jogador compra cartas de lote e escolhe quantas quer marcar no tabuleiro. Depois puxa peças de negócio do saco. Então a mesa negocia livremente. Por último, todo negócio no tabuleiro paga.

A marcação de lote é o primeiro compromisso duro. A carta traz um número, o número corresponde a uma casa específica da grade, e colocar seu marcador ali fixa aquele pedaço de calçada no seu nome pelo resto da partida. Lote marcado não volta atrás, ele só troca de dono por negociação.

As peças de negócio saem do saco viradas para baixo e chegam sem pedir licença. Cada tipo pede um número exato de lotes contíguos para ficar completo, e a peça avulsa que sobra na sua bandeja não vale nada enquanto não estiver plantada no tabuleiro.

O desencontro entre o que caiu na sua mão e o que você precisa é deliberado. O jogo distribui pedaço de solução para todo mundo, sem entregar a solução inteira para ninguém, e a conversa da mesa existe para desfazer esse embaralhamento.

“Qualquer proposta pode misturar lote, peça e dinheiro em qualquer proporção, e nada impede uma troca de três peças por um lote e cinquenta mil dólares no mesmo aperto de mão.”

O que o manual não aceita é o acordo com perna futura. Você vende agora o lote 47 por trinta mil, o dinheiro é contado agora, o marcador muda agora. Se a proposta for trinta mil na próxima rodada, o jogo não tem mecanismo nenhum para cobrar essa dívida, e nenhum árbitro para acionar.

Essa restrição empurra a criatividade para dentro do momento presente. Quem quer fechar negócio inventa pacote maior, junta um lote ruim com dinheiro vivo, chama uma terceira pessoa para completar o triângulo, tudo dentro da mesma janela de conversa.

A negociação acontece com todo mundo falando junto. Você conversa em paralelo com dois vizinhos e fecha com o que responder primeiro, e a mesa vira um pequeno pregão até alguém bater o martelo.

Terminada a fase, cada negócio completo paga o valor cheio impresso na tabela do jogo, e cada negócio incompleto paga a fração correspondente ao número de peças já colocadas. Completar rende desproporcionalmente mais, e é essa desproporção que dá valor a um lote sem graça que fecha um conjunto de quatro.

O tempo também aperta. Um negócio completado na primeira rodada arrecada seis vezes, e o mesmo negócio completado na quinta arrecada duas. Comprar caro cedo costuma ser mais barato que comprar barato tarde.

"O poder de restringir um adversário depende do poder de comprometer a si mesmo."
Thomas Schelling, A Estratégia do Conflito, 1960

NOTA DA CASA8.3 / 10
negociação
 
9
componentes
 
7
rejogabilidade
 
8
custo-benefício
 
8
acessibilidade
 
8
interação
 
10
 
 

II  Para Quem Vale

II, Quem gosta de fechar negócio olhando no olho

Vale pra mesa que fala alto e gosta de barganha. A partida inteira é conversa cruzada, e o silêncio só aparece na hora de contar o dinheiro no fim da rodada.

Vale pra grupo de cinco. A caixa fica no auge com a mesa cheia, porque cada lote disputado tem mais candidatos e cada peça avulsa tem mais compradores possíveis.

Vale pra quem quer regra curta com decisão longa. O manual explica tudo em poucas páginas e um grupo novo começa a jogar em dez minutos, mas a discussão sobre quanto vale um lote de esquina dura a noite toda.

Vale pra mesa mista de veterano e iniciante. Ninguém precisa saber combo nem árvore de construção, e a pessoa que negocia bem na vida real chega competitiva na primeira partida.

Vale pra quem tem uma hora e meia livre e quer barulho na sala. As seis rodadas fecham nesse intervalo com mesa cheia.

Passe longe se a sua mesa detesta confronto direto. Recusar oferta, insistir no preço e ver o vizinho fechar com outro é o dia a dia da partida, e quem se incomoda com atrito social sai cansado.

Fora do carrinho se você joga sempre em dois. A caixa pede três no mínimo, e mesmo em três a barganha perde força porque cada pessoa só tem um interlocutor de cada lado.

Pense duas vezes se você quer profundidade tática no tabuleiro. A grade de lotes é simples de propósito, e toda a complexidade mora na cabeça das pessoas sentadas ao redor.

Três alternativas para quem quer jogo de negociação com dinheiro na mesa:

Bohnanza, perto de R$150 nas lojas nacionais, troca de cartas de feijão em ritmo rápido e mão que não pode ser reordenada

Xerife de Nottingham, perto de R$260 nas lojas nacionais, contrabando declarado em voz alta e suborno pago por baixo da mesa

Diplomacia, perto de R$300 nas lojas nacionais, negociação sem sorte nenhuma e ordens escritas em segredo a cada turno

Na nossa opinião: Chinatown consegue algo raro, que é entregar uma partida inteira de negociação sem um único mecanismo de leilão para segurar a mão da mesa, e o pagamento imediato mantém a conversa honesta sem precisar de fiscal.
O que segura a nota é a dependência do grupo. Com gente tímida ou avessa a barganhar, a caixa vira uma sequência morna de trocas óbvias, e nenhuma regra do manual conserta uma mesa calada.

 

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III  Onde Comprar

III, A caixa de aniversário e o teste do saquinho

Chinatown saiu em 1999 pela Alea e ganhou uma edição de aniversário em 2019 pela Member's Only Games, com arte nova, peças redesenhadas e componentes mais grossos que a tiragem original. Confira a edição em português nas lojas nacionais antes de pensar em importação, porque a disponibilidade oscila e a caixa reaparece em reimpressão.

A faixa que aparece nas lojas nacionais anda entre R$250 e R$400 na caixa lacrada. Feira e promoção de fim de ano derrubam para perto de R$200, e anúncio de marketplace pedindo acima de R$600 costuma ser revenda de estoque parado, sem pressa nenhuma da sua parte.

O idioma pesa pouco durante a partida e um pouco no aprendizado. As peças de negócio são ilustradas e quase não trazem texto, a tabela de pagamento é numérica, e o manual em português economiza a primeira meia hora do grupo novo.

Existem versões diferentes circulando e confundir custa dinheiro. A tiragem antiga da Alea tem caixa menor, peças de papelão fino e dinheiro de papel comum. A edição de 2019 traz material mais firme, organizador interno e arte redesenhada, e é a que a comunidade indica para quem vai jogar muito.

O dinheiro é o componente que mais sofre com o uso. Cédula dobrada atrasa a contagem no fim da rodada, e trocar por notas de plástico resolve por menos de cinquenta reais.

Confira estes pontos antes de fechar qualquer cópia, principalmente usada:

Se todas as peças de negócio estão presentes, porque a distribuição por tipo é calculada e faltar duas já muda o que a mesa consegue completar

Se o baralho de cartas de lote está inteiro, já que a numeração cobre a grade exata do tabuleiro e uma carta perdida deixa uma casa inalcançável

Se os marcadores de jogador estão todos lá, contando por cor, porque a partida usa muitos deles e o vendedor raramente confere

Qual edição aparece na foto do anúncio, que é onde o vendedor desatento mistura a caixa antiga da Alea com a de aniversário

Cópia usada com tabuleiro marcado de vinco tem conserto simples, basta um vidro fino ou um tapete de neoprene por cima. Peça de negócio faltando é problema maior, porque substituir por marcador improvisado tira a leitura visual de quem está perto de completar o quê, e essa leitura é metade do que se negocia.

A manutenção é fácil: saquinhos por tipo de negócio e dinheiro separado por valor cortam a montagem para dois minutos.

Ensinar leva dez minutos honestos. O caminho curto é abrir as cartas da primeira rodada e deixar a mesa negociar sem placar, e começar a valer na segunda.

No custo por partida, uma caixa de R$300 fecha em dez reais por noite depois de trinta partidas, e trinta partidas chegam rápido num título que qualquer grupo de cinco topa jogar sem explicação longa.

“Você vende agora o lote que fecha a floricultura do vizinho por sessenta mil no ato, ou segura o lote mais três rodadas esperando que ele suba para cem mil e arriscando que ele complete o negócio por outro caminho?”

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Segundo o texto, um negócio completado já na primeira rodada de Chinatown paga quantas vezes o valor da tabela, comparado ao mesmo negócio completado na quinta rodada?

AQuatro vezes contra uma vez
BCinco vezes contra duas vezes
CSeis vezes contra duas vezes
DTrês vezes contra uma vez

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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Boa mesa. Alea iacta est.

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